O lema de Itô, e por que a regra da cadeia quebra
Todo curso apresenta o lema de Itô como uma regra da cadeia com um termo extra estranho. Este texto mostra de onde vem esse termo, por que ele não é opcional, e o que ele faz com o seu dinheiro.
Se você já viu o lema de Itô, também chamado de fórmula de Itô, provavelmente viu assim. A regra da cadeia normal diz que \( df = f'(x)\,dx \). Para um processo estocástico, aparece um termo a mais, com uma segunda derivada e um fator de um meio, e o professor diz que isso vem da variação quadrática do movimento browniano. Você anota e segue.
Só que esse termo extra carrega quase tudo. Sem ele não existe Black-Scholes, não existe hedge dinâmico como o conhecemos, e o retorno típico de um investimento seria outro número. Vale entender de onde ele sai.
O caminho
- Por que a regra da cadeia normal falha
- O fato central, a variação quadrática
- A dedução por Taylor, a demonstração heurística
- Primeiro teste, a função ao quadrado
- O caso que importa, o log do preço
- O arrasto de volatilidade, com números
1. Por que a regra da cadeia normal falha
Na regra da cadeia usual, você despreza tudo que for de ordem superior. Se \( x \) varia por \( \Delta x \), então
e o segundo termo some no limite, porque \( (\Delta x)^{2} \) é muito menor que \( \Delta x \). Se \( \Delta x \) vale um centésimo, o quadrado vale um décimo de milésimo. Ignorar é seguro.
Com o movimento browniano essa conta muda, e muda por um motivo geométrico. Um caminho browniano não é suave. Ele oscila em toda escala, e por isso o tamanho típico de um incremento não é proporcional ao intervalo de tempo, é proporcional à raiz dele.
É a mesma escala raiz do tempo que faz a volatilidade anual ser a diária multiplicada por \( \sqrt{252} \). E ela estraga o argumento anterior, porque agora
O termo de segunda ordem tem exatamente o mesmo tamanho do termo de primeira ordem em \( t \). Ele não é desprezível, ele é da mesma ordem do que você está tentando calcular. Jogar fora seria errar o resultado, não arredondá-lo.
2. O fato central, a variação quadrática
Vamos tornar isso preciso. Divida o intervalo \( [0,T] \) em \( n \) pedaços e some os quadrados dos incrementos. A afirmação é que essa soma converge para \( T \), e não para zero.
Dá para ver por quê com probabilidade básica. Cada incremento é normal com variância \( \Delta t \), então
A média já dá \( T \). Falta mostrar que não é só a média, que a soma de fato gruda em \( T \). Para uma normal de média zero vale \( \mathrm{Var}(Z^{2}) = 2\sigma^{4} \), o que sai do momento quarto da normal, \( \mathbb{E}[Z^{4}] = 3\sigma^{4} \), fazendo \( 3\sigma^{4} - \sigma^{4} \). Logo cada parcela tem variância \( 2(\Delta t)^{2} \), e como os incrementos são independentes,
Variância indo a zero com média fixa em \( T \) significa que a soma deixa de ser aleatória. Ela vira o número \( T \). Esse é o resultado surpreendente. Cada caminho é um caos diferente, mas todos acumulam exatamente a mesma variação quadrática. O nome formal desse tipo de convergência é convergência em média quadrática.
Conferido numericamente
Simulei um caminho browniano em \( [0,1] \) com refinamentos sucessivos. A soma dos quadrados converge para 1, enquanto a soma dos valores absolutos cresce sem parar, o que mostra que o caminho tem comprimento infinito mas variação quadrática finita.
| passos | soma de \( (\Delta W)^2 \) | soma de \( |\Delta W| \) |
|---|---|---|
| 100 | 0,796 | 6,9 |
| 1 000 | 0,930 | 24,1 |
| 10 000 | 0,999 | 79,7 |
| 100 000 | 0,997 | 251,8 |
| 1 000 000 | 0,999 | 797,6 |
Repare que a coluna da direita cresce por um fator de aproximadamente \( \sqrt{10} \) a cada linha, que é a assinatura da escala raiz do tempo.
Na notação abreviada que todo mundo usa, esse resultado vira uma regra de multiplicação.
As duas últimas são o comportamento normal, coisas de ordem superior somem. A primeira é a anomalia, e é dela que sai tudo.
3. A dedução por Taylor, a demonstração heurística
Considere um processo com arrasto e ruído, o formato geral de quase todo modelo de preço.
Queremos saber como se comporta \( f(t, X_t) \). Expanda em Taylor até segunda ordem, mantendo por enquanto todos os termos.
Agora aplique as regras de multiplicação. Comece por \( (dX)^{2} \).
E os outros produtos? Vale conferir as ordens um a um, já que a seção 1 acabou de ensinar a desconfiar de qualquer coisa descartada como sendo de ordem superior. O termo \( (dt)^{2} \) é de ordem \( dt^{2} \). O produto \( dt\,dW \) tem tamanho típico \( dt\sqrt{dt} \), ou seja, ordem \( dt^{3/2} \). Os dois são menores que \( dt \) e somem no limite, mas por taxas diferentes. O único produto de segunda ordem que sobrevive na ordem \( dt \) é exatamente \( (dW)^{2} \). Sobra
e agrupando por \( dt \) e por \( dW \), chegamos ao lema.
O que ler nessa fórmula
Comparada com a regra da cadeia comum, apareceu um único termo novo, o \( \tfrac{1}{2}\sigma^{2}f_{xx} \), e ele entra no arrasto, não no ruído. Ou seja, a curvatura da função altera o retorno médio do processo transformado. Função convexa ganha um empurrão para cima, função côncava apanha. Todo o resto é regra da cadeia de sempre.
Uma licença que vale registrar. Enunciei o lema com \( \mu \) e \( \sigma \) constantes para não carregar a notação, mas ele vale igual quando os dois dependem do tempo e do próprio \( X \). Basta usar, em cada termo, o arrasto e a difusão do processo em questão, que é exatamente o que faremos na seção 5.
4. Primeiro teste, a função ao quadrado
O menor exemplo que já mostra o efeito é \( f(W) = W^{2} \), com \( \mu = 0 \) e \( \sigma = 1 \), ou seja, o próprio browniano. Aqui \( f_x = 2W \) e \( f_{xx} = 2 \).
Pela regra da cadeia comum sairia apenas \( 2W\,dW \). O \( dt \) extra tem uma consequência que dá para testar. Integrando dos dois lados de 0 a \( T \), e lembrando que a integral de Itô tem média zero, para integrandos bem comportados como todos os deste texto,
que é justamente a variância do browniano, como tinha que ser. Se você tivesse ignorado o termo extra, concluiria que \( \mathbb{E}[W_T^{2}] = 0 \), o que é absurdo, já que um quadrado não pode ter média zero sem ser identicamente nulo.
Onde a integral de Itô difere de todas as outras
Ao calcular \( \int 2W\,dW \) numericamente, o valor de \( W \) precisa ser tomado no início de cada intervalo. Isso não é convenção arbitrária, e o preço de errar é mensurável. Simulei as três escolhas possíveis, com \( T = 1 \).
| onde \( W \) é amostrado | viés em relação a Itô | medido |
|---|---|---|
| início do intervalo | 0 | 0,000 |
| meio do intervalo | \( +T \) | +1,000 |
| fim do intervalo | \( +2T \) | +2,000 |
Cada convenção calcula uma coisa diferente. A do meio é a integral de Stratonovich, que devolve exatamente \( W_T^{2} \) e obedece à regra da cadeia comum, mas não é martingale. A do fim erra por \( 2T \), porque \( \sum 2W_{i+1}\Delta W = \sum 2W_i\Delta W + 2\sum(\Delta W)^{2} \), e a segunda soma é a variação quadrática. Só a do início tem média zero, e é ela que dá sentido financeiro à coisa, porque você decide quanto comprar antes de ver o que o preço fez, não depois.
5. O caso que importa, o log do preço
O modelo padrão de preço de ativo é o movimento browniano geométrico, em que o retorno percentual é que tem arrasto e ruído constantes.
Aplique o lema a \( f(S) = \ln S \), que tem \( f_t = 0 \), \( f_x = \dfrac{1}{S} \) e \( f_{xx} = -\dfrac{1}{S^{2}} \). Note que aqui o arrasto é \( \mu S \) e a difusão é \( \sigma S \), então
Esse é o resultado mais citado de todo o cálculo estocástico, e a origem do famoso \( -\sigma^{2}/2 \). Integrando, o preço fica
Repare no que aconteceu. O ativo tem retorno esperado \( \mu \), mas o logaritmo dele cresce a uma taxa menor. A diferença é exatamente metade da variância, e ela vem do fato de o logaritmo ser côncavo.
6. O arrasto de volatilidade, com números
Essa correção separa duas quantidades que quase todo mundo confunde, a média e o resultado típico.
A média é puxada por uma cauda de cenários muito bons e raros. A mediana é o que acontece num ano comum. Simulei os dois para três combinações, com horizonte de um ano.
| \( \mu \) | \( \sigma \) | média de \( S_T/S_0 \) | mediana de \( S_T/S_0 \) |
|---|---|---|---|
| 8% | 20% | 1,083 | 1,063 |
| 10% | 30% | 1,104 | 1,057 |
| 15% | 50% | 1,161 | 1,025 |
Olhe a última linha. Um ativo com retorno esperado de 15% ao ano entrega, no cenário mediano, 2,5%. A média de 16,1% existe, mas a maioria dos caminhos fica bem abaixo dela. Metade da variância, aqui, come 12,5 pontos percentuais de retorno típico.
É por isso que volatilidade alta corrói patrimônio mesmo quando a expectativa é positiva. E é a matemática por trás da decepção dos ETFs alavancados em prazos longos. Com alavancagem \( L \) e rebalanceamento diário, a exposição se mantém em \( L \) vezes o ativo, o que faz a volatilidade virar \( L\sigma \) e o crescimento típico virar \( L\mu - \tfrac{1}{2}L^{2}\sigma^{2} \). O ganho escala com \( L \), o arrasto escala com \( L^{2} \).
Com \( \mu = 10\% \) e \( \sigma = 20\% \), alavancar duas vezes dá \( 20\% - 8\% = 12\% \) de crescimento típico. Alavancar quatro vezes dá \( 40\% - 32\% = 8\% \). Mais risco, menos resultado. Existe portanto uma alavancagem que maximiza esse crescimento, e encontrá-la é o critério de Kelly, que aqui dá \( L^{*} = \mu/\sigma^{2} = 2{,}5 \).
Vale a precisão. Esse arrasto proporcional a \( L^{2} \) é filho do rebalanceamento constante, que é o que mantém a exposição fixa em \( L \). Uma posição alavancada estática, comprada com margem e deixada quieta, não sofre o mesmo efeito, porque a alavancagem efetiva dela muda sozinha conforme o preço anda.
O \( -\sigma^{2}/2 \) não é um detalhe de notação, é dinheiro.
Veja a escala raiz do tempo que sustenta tudo isso
Todo o argumento da seção 2 depende de o incremento browniano escalar com a raiz do tempo. Construí um simulador que mostra isso, com trajetórias ao vivo e o envelope de dois desvios padrão. Gratuito e sem cadastro.
Abrir o laboratórioOnde isso vai dar
O lema de Itô é a ferramenta, não o destino. Aplicando ele ao preço de uma opção e montando uma carteira que cancela o termo em \( dW \), o acaso desaparece e sobra uma equação determinística, que é a equação de Black-Scholes. E essa equação, por sua vez, é a equação do calor disfarçada.
Escrevi essa segunda passagem inteira em outra página, com as três substituições e as contas todas. Por que Black-Scholes é a equação do calor disfarçada.
Para fixar
Feche a aba e responda no papel.
- Por que \( (\Delta W)^{2} \) não pode ser desprezado, se \( (\Delta x)^{2} \) pode?
- Por que a soma dos quadrados dos incrementos deixa de ser aleatória?
- Aplique o lema a \( f(S) = S^{2} \) num movimento browniano geométrico. Qual é o arrasto do resultado?
- Um ativo tem \( \mu = 12\% \) e \( \sigma = 40\% \). Qual o crescimento típico em um ano?
Respostas da terceira e da quarta. Para \( f = S^{2} \) sai \( d(S^{2}) = (2\mu + \sigma^{2})S^{2}dt + 2\sigma S^{2}dW \), ou seja, a convexidade aumenta o arrasto, ao contrário do logaritmo. Na quarta, \( 12\% - \tfrac{1}{2}(40\%)^{2} = 4\% \).